terça-feira, 7 de outubro de 2008

LUIZ TATIT



QUER UMA COISA?

quer uma coisa?
vai lá e pega
já pegou?
então sossega

dá o dedo, quer a mão
dá a mão, quer o braço
dá o braço quer o resto
e vai pegando por costume ou por engano
quando vê, tem um montão de bagatelas
escapando pelas portas e janelas
quando vê, tem pedaços de ele-pê
papéis soltos de dossiê
tem até uma borrachinha de um antigo decavê

quer dar um beijo?
taí sua nêga
já beijou?
agora chega

dá a boca, quer o corpo
dá o corpo quer a alma
dá a alma quer o diabo
e vão nascendo jogos puros e obscenos
quando vê, tem um montão de bocas belas
distribuindo beijos como nas novelas
quando vê, tem boquinhas de morder
tem boquinhas de prazer
tem enfim tantas boquinhas e nem tem o que dizer

hora de pegar
hora de abandonar
hora de ter seu lugar
hora de continuar

quer uma força?
vai lá e chora
ficou forte?
adeus, cai fora

quer uma cor chama os outros
chama os outros tem o dobro
vem o dobro vira festa
e se alastra com dee-jay e sonoplasta
quando vê, tem um montão de tagarelas
incitando as conversas paralelas
quando vê, tem uma rede de tevê
tem convites pra turnê
tem até uma tiete que não vive sem você

hora de pegar
hora de abandonar
hora de ter seu lugar
hora de continuar

quer uma coisa?
vai lá e pega
já pegou?
então sossega

quer dar um beijo?
taí sua nêga
já beijou?
agora chega

quer uma força
vai lá e chora
ficou forte?
adeus, cai fora
adeus, cai fora
adeus, cai fora

LUIZ TATIT
Luiz Tatit é formado como bacharel em Letras (Linguística) pela FFLCH da USP, em 1978, e em Música (Composição) pela ECA da USP, em 1979.
Em 1986
defende na FFLCH a tese de doutorado "Elementos semióticos para uma tipologia da canção popular brasileira". É professor titular do Departamento de Lingüística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

É membro fundador do Grupo RUMO, representante da vanguarda musical paulista da década de 1980. Com o Grupo RUMO, incluindo compactos, Luiz Tatit gravou no total seis discos, relançados em 2004. A partir da década de 1990 segue carreira solo.

Luiz Tatit escreveu a letra da canção Capitu, homenagem ao personagem do livro Dom Casmurro, de Machado de Assis. Foi gravada por Zélia Duncan e Ná Ozzetti.
Sua canção Achou foi vice-campeã de júri e de público no Festival da TV Cultura
, defendida por Ceumar. A canção Show, defendida por Ná Ozzetti no "Festival da Música Brasileira", da TV Globo, deu à cantora o prêmio de "Melhor Intérprete", e o direito a gravar um CD pela Som Livre, que recebeu o mesmo título da canção, Show.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Movimento contínuo, cíclico, com ordem rítmica e tempo preciso, marcando o compasso no passo do marcapasso. tunt tunt tunt. Dar corda na caixinha que volta a rodar num movimento contínuo, cíclico, com ordem rítmica e tempo preciso, marcando o compasso no passo do marcapasso. tunt tunt tunt.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Areia Movediça

Eu soltei a mão. Soltei e parei.
De repente foi ficando tudo escuro e silencioso.
Um oceano em uma madrugada sem Lua.
E pude ouvir meu coração. Pulsava o sangue vermelho, vivo, se espalhando por cada canto do meu corpo. Meus pés e pernas se mexiam com dificuldade, eu não conseguia sair do lugar. Flutuava numa substância densa e viscosa. Um oceano morno. Não conseguia respirar ali.
Como sair dessa areia movediça?
Era a primeira vez que só me restava eu mesma.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Dúvida

Pra quê serve a dúvida?
Para o não fazer.
De onde vem a vontade do não fazer?
Muitos podem ser seus motivos. No meu caso é o de não amar.
Eu não amo. Nunca amei ninguém.
No máximo me apaixono pelas possibilidades indicadas pela pessoa na minha vida.
Mas afinal, o que é o amor? (pergunta que não quer calar)
Se é amizade, carinho, cuidado, respeito, admiração, companheirismo, cumplicidade, afeto, compreensão...
Sim! Eu amo.
Mas se o amor está além desses sentimentos mundanos, humanos, voláteis, mutáveis, frágeis, solitários...
Não! Nenhuma de nós nunca amou de verdade.
Se o amor é não ter propriedade nem limite, regras nem juízo. Se amar é ser livre para amar como quiser, sentir o que vier e ter vontade de se ter vontade, então vamos soltar as mãos e voar.
Voar.

terça-feira, 27 de março de 2007

a lágrima branca escorre pelo pára-choque preto do carro sujo.
no fundo, o azul lilás se funde com o amarelo trigo
como a cerveja que o copo esquenta e resfria o corpo cansado
de esperar que a boca sedenta venha.

sábado, 24 de março de 2007


se de cá eu pudesse
fazer um pedido às estrelas
este seria que teu coração
se abrisse com a coragem de um leão
e a inocência de uma criança
para este amor que clama pela oportunidade
de respirar sem ser sufocado.
só é preciso parar tudo e ouvir com atenção,
seguindo o chamado tudo pode se tornar real.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

Dentre todas as flores
A que tinha mais espinhos fui eu escolher
e as feridas destes ensinaram-me a amar sem sofrer.
Ja nao sou mais uma alma carente
A caminhar pelo mundo a chorar
Vivo a esperar pela chuva a semear o horizonte distante.
Quando a semente então florear
Seu coração vai descobrir
Que um grande amor não se pode calar
Se de longe o espinho insiste em ferir.